Desde que partis-te fisicamente deste mundo que me tenho sentido muito só. É bem certo que não me fazias companhia todo o dia, mas eu sentia que estavas comigo, e que bastava um passo para te encontrar, te pegar na mão e ver a forma como me olhavas, com olhos de choro. Não conseguias dizer nada, a tua idade já não o permitia, mas sentias que eu ali estava, tu sabias, tanto que me apertavas a mão com tanta força quanto podias, e uma lágrima escorria do teu rosto envelhecido, mas bonito. Cada dia mais bonito que nunca.
Nada me podia custar mais do que te ver naquele teu último destino, onde vais descansar eternamente. Custou-me olhar e ver que ali estavas deitado, naquelas tábuas frias e feias, onde te deitaram, pálido e gelado, branco, com um ar doce. Parecias um anjo. Tive de pensar para comigo mesma que estavas a dormir, tal como te vira outras vezes, para te poder olhar e despedir-me por fim, quando te fecharam naquela caixa pequena, aquela caixa onde ficas-te apertado e sem espaço para víveres a tua eternidade à vontade, abafado.
Quando te começaram a descer para aquele buraco escuro e húmido, o meu coração estremeceu. Apetecia-me correr até ti e acordar-te para te dizer que te estavam a meter num buraco, como se te tivessem a pôr num poço. As lágrimas vieram-me aos olhos então, agora com muito mais força, sentia os meus olhos a rebentar de tanto chorar. Só queria acordar daquele pesadelo em que me meteram, quando te levaram de mim, para um outro lugar que espero ser melhor que este, para que tenhas todo o descanso que mereces.
Os dias tem-se passado lentamente, desde o dia 24 de Janeiro de 2010, em que partis-te para tão longe, para um sitio inalcançável.
Consigo ver com total nitidez o momento no qual o teu rosto branco começou a desaparecer, na altura em que te fechavam naquela caixa horrível. Só ouvia a tua filha a chorar, a gritar pelo teu nome, a pedir que não te pusessem ali, a agradecer-te tudo o que fizeste por ela enquanto eras vivo, enquanto podes-te. Agarrei-me então a ela, à minha mãe para a acalmar, não queria que chorasse daquela forma, queria que ela tivesse força para me poder dar a mim também, eu sentia-me a desfalecer, precisava tanto da dela, mas no final de tudo fui eu que a agarrei e partilhei com ela a pouca força que ainda me restava.
Chorei muito, e ainda choro quando estou sozinha, afinal ainda não passou uma semana…tudo tem sido muito complicado para mim, tento transparecer estar forte e bem, quando por dentro estou destroçada, por dentro estou em pedaços, em pedaços cheios de sofrimento em tua memória.
Amo-te com todas as minhas forças, amo-te e sinto a tua falta… Quero recordar-te pelos bons momentos, não quero recordar-te por aquela tua imagem angelical, mas final também..
Preferia que tudo não passasse de um pesadelo, e que acordasse e que ainda estivesses comigo, aqui neste mundo, neste nosso mundo, onde fomos tão felizes.
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